O que é que o tubarão diz à tubaroa?
"Tubaralhas-me"
Não é deliciosa?
30 de Julho de 2008
Domingo, 7:30h
Depois de uma noite de urgência, em que atendi "n" vitimas de agressão da noite de lisboa, um politraumatizado vitima de acidente de mota no guincho e mais uma série de trivialidades, aparece-me, às 7:30 da manhã, uma ficha de um doente para ver.
Apesar de já nem conseguir manter os olhos abertos, lembrei-me o quanto detesto que os colegas que estão de saida deixem fichas por ver, pelo que chamei o doente.
As queixas do doente eram bastante simples. Tinha uma ileostomia na sequência de uma cirurgia por neoplasia (o vulgarmente conhecido "intestino à pele") e a placa que cola o saquinho à pele estava descolada pelo que perdia fezes por aí.
Apesar de ser uma situação bastante desagradável, não era de todo, uma situação de urgência/emergência.
No entanto, e porque já tinha chamado o doente levei-o para a sala de pequena cirurgia para tentar resolver o assunto e, inclusive, pedi auxilio a uma enfermeira, uma vez que elas têm muito mais experiência no manuseamento destas situações.
E caí no erro de comentar com o doente aquela não era uma situação para a o serviço de urgência.
O filho do doente, com maus modos, pediu-me para lhe dizer que solução é que eu preconizava, ao que eu respondi que não tinha que dar solução nenhuma uma vez que não era o cirurgião assistente do doente, mas que por agora a situação ficaria resolvida após o que deveriam procurar o dito cirurgião.
Obviamente que a conversa do dito filho descambou, aos berros, para os impostos que ele pagava e que lhe davam o direito a ser atendido ali.
Acto contínuo, eu expliquei-lhe que não ia, ao fim de 23 horas e meia de trabalho entrar numa discussão e que se ele se tinha sentido ofendido teria apenas que reclamar junto das instâncias competentes. Em seguida pedi-lhe que saisse da sala, o que teve o condão de o deixar ainda mais furioso e lá saiu ele a reclamar.
Avançamos 40 minutos.
São 8:10h e eu estou na mota a preparar-me para ir para casa quando oiço ao longe alguém gritar: "Vai dormir oh estúpido de merda!".
Lembro-me de pensar que estava tudo doido porque já havia pessoas a insultarem-se aquela hora.
Em seguida oiço: "Estou a falar contigo cabrão". Foi quando olhei para ver o que se estava a passar.
Para meu espanto, vejo o filho do doente e subitamente percebo que é a mim que ele se está a dirigir.
"És um filho da puta!!!"
Não sei se foi o cansaço, a adrenalina ou o sentir-me ofendido. Sei que coloquei a mota no descanso, e saí disparado na direcção dele de capacete, luvas e casaco. Só o queria desfazer à pancada.
A 5 metros dele, de repente, parei. Na minha cabeça, entretanto, só ecoava a pergunta: "mas o que é que tu vais fazer?"
Lembrei-me da C., do nosso filho, da familia que já somos e percebi que ia deitar tudo a perder.... De repente comecei a imaginar o telejornal da TVI dessa noite: "Familiar indefeso agredido por médico desiquilibrado".
Percebi que a unica coisa inteligente a fazer era voltar costas, meter-me na mota e só parar em casa. E foi exactamente isso que eu fiz.
Sinceramente, não consigo perceber porque é que tive aquela reacção. E estou assustado. Principalmente porque sinto que, se em vez de estar a 15 metros, ele estivesse mais perto, eu não teria parado.
E pensar em perder o controlo daquela forma aterroriza-me.
Apesar de já nem conseguir manter os olhos abertos, lembrei-me o quanto detesto que os colegas que estão de saida deixem fichas por ver, pelo que chamei o doente.
As queixas do doente eram bastante simples. Tinha uma ileostomia na sequência de uma cirurgia por neoplasia (o vulgarmente conhecido "intestino à pele") e a placa que cola o saquinho à pele estava descolada pelo que perdia fezes por aí.
Apesar de ser uma situação bastante desagradável, não era de todo, uma situação de urgência/emergência.
No entanto, e porque já tinha chamado o doente levei-o para a sala de pequena cirurgia para tentar resolver o assunto e, inclusive, pedi auxilio a uma enfermeira, uma vez que elas têm muito mais experiência no manuseamento destas situações.
E caí no erro de comentar com o doente aquela não era uma situação para a o serviço de urgência.
O filho do doente, com maus modos, pediu-me para lhe dizer que solução é que eu preconizava, ao que eu respondi que não tinha que dar solução nenhuma uma vez que não era o cirurgião assistente do doente, mas que por agora a situação ficaria resolvida após o que deveriam procurar o dito cirurgião.
Obviamente que a conversa do dito filho descambou, aos berros, para os impostos que ele pagava e que lhe davam o direito a ser atendido ali.
Acto contínuo, eu expliquei-lhe que não ia, ao fim de 23 horas e meia de trabalho entrar numa discussão e que se ele se tinha sentido ofendido teria apenas que reclamar junto das instâncias competentes. Em seguida pedi-lhe que saisse da sala, o que teve o condão de o deixar ainda mais furioso e lá saiu ele a reclamar.
Avançamos 40 minutos.
São 8:10h e eu estou na mota a preparar-me para ir para casa quando oiço ao longe alguém gritar: "Vai dormir oh estúpido de merda!".
Lembro-me de pensar que estava tudo doido porque já havia pessoas a insultarem-se aquela hora.
Em seguida oiço: "Estou a falar contigo cabrão". Foi quando olhei para ver o que se estava a passar.
Para meu espanto, vejo o filho do doente e subitamente percebo que é a mim que ele se está a dirigir.
"És um filho da puta!!!"
Não sei se foi o cansaço, a adrenalina ou o sentir-me ofendido. Sei que coloquei a mota no descanso, e saí disparado na direcção dele de capacete, luvas e casaco. Só o queria desfazer à pancada.
A 5 metros dele, de repente, parei. Na minha cabeça, entretanto, só ecoava a pergunta: "mas o que é que tu vais fazer?"
Lembrei-me da C., do nosso filho, da familia que já somos e percebi que ia deitar tudo a perder.... De repente comecei a imaginar o telejornal da TVI dessa noite: "Familiar indefeso agredido por médico desiquilibrado".
Percebi que a unica coisa inteligente a fazer era voltar costas, meter-me na mota e só parar em casa. E foi exactamente isso que eu fiz.
Sinceramente, não consigo perceber porque é que tive aquela reacção. E estou assustado. Principalmente porque sinto que, se em vez de estar a 15 metros, ele estivesse mais perto, eu não teria parado.
E pensar em perder o controlo daquela forma aterroriza-me.
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