24 de Fevereiro de 2008

Ele há momentos assim...

Poucas coisas são tão frustrantes para um cirurgião (seja ele interno como eu ou já especialista) como as complicações pós-operatórias.
Se é verdade que só não tem complicações quem não opera doentes, o aparecimento de uma complicação obriga-nos sempre a encarar a hipótese de ter errado na abordagem de determinada situação.
Mas mais frustrante é chegar à conclusão que podemos ter errado ao tentar agradar o doente.
Há uma semana atrás, no serviço de urgência operei uma doente que apresentava uma hérnia umbilical encarcerada.
Fui falar com a doente para lhe explicar o que lhe ia fazer, e ao abordar a técnica de reparação mencionei a hipótese de ter que lhe tirar o umbigo. Quando confrontada com esta hipótese a doente ficou triste a apesar de eu lhe ter explicado que o umbigo é apenas "decorativo" pediu-me que fizesse todos os possiveis para o conservar.
Ao fim de quase duas horas a lutar contra uma hérnia duma doente obesa, cheguei ao momento da decisão relativamente ao umbigo e apesar do risco de complicações decidi fazer uma cirurgia conservadora do umbigo, uma vez que me pareceu, naquele momento, que estavam reunidas as condições para o fazer. Tal facto deixou a doente radiante.
Para abreviar uma história relativamente longa, avanço uma semana. Neste momento a doente apresenta uma infecção do umbigo com necrose da pele e vai voltar ao bloco para fazer uma excisão da porção necrosada, o que muito provavelmente vai implicar a excisão total do umbigo.
E é aqui que começam os meus problemas de consciência.
Até que ponto, na minha tentativa de agradar a doente, não acabei por lhe fazer mais mal que bem?
Se tenho feito, de inicio, a excisão do umbigo, provavelmente a doente estaria já em casa a recuperar, em vez de se estar a preparar para uma nova intervenção cirúrgica com todos os riscos que isso acarreta.
É claro que posteriormente é fácil chegar à conclusão que não tomei a opção correcta.
Mas terei errado?
A minha dúvida é a seguinte: até que ponto é lícito correr riscos para agradar aos doentes?
Estarão os doentes preparados para os riscos a que se estão a expôr quando nos pedem coisas que a prudência recomenda que não façamos?

Não sei, nem consigo em consciência responder a esta pergunta.

Mas sei que quando olho para a doente, não sinto que a culpa seja dela...

3 parvoices:

Luis disse...

João
Essas dúvidas, esses problemas de consciência sempre aparecem quer se seja interno ou "já batido".
Como diria um colega: "foi uma tentativa honesta..." e estás sempre a tempo de emendar a mão.
Não desanimes e prepara-te porque vais frequentemente questionar as tuas opções,principalmente quando te surgirem incidentes.
O mau é não fazer análise interior ou não ter sentido crítico. Passamos a ser irresponsáveis.
Um abraço

Lullaby disse...

Olá, andava a vaguear na net e vim aqui parar, e a verdade é que este post me inquietou! Por isso não pude deixar de comentar! Desculpa desde já o atrevimento!
Imagina que em vez de cirurgião és um canalizador, após diagnosticar a necessidade de trocar uma canalizaçao inteira a dona da casa recusa e pede apenas que seja remediado o problema. Neste caso seria muito facil, ou farias o trabalho atabalhoado que te pediam ou recusar-te-ias e deixavas a casa! A comparação pode ser infantil e parecer disparatada isto porque se tratam de pessoas e não de canos e até porque não terias a hipotese de abandonar a casa! Certo? Não te quero acusar, apontar o dedo, até porque acho que não há uma respota certa para a tua questão. Mas parece-me importante não esquecer (não querendo dizer que esqueceste!) que dentro de cada DOENTE está um SER HUMANO e que nem sempre o que aprendemos e temos como certo é certo para os outros e quer queiramos quer não é um facto consumado com o qual nao podemos lutar e apenas podemos e devemos respeitar. Um umbigo para muitos não é apenas decorativo e esses muitos são livres de não querer viver sem ele mesmo que à luz da ciencia e aos olhos de um cirurgião isso seja um termendo disparate (O Bob Marley morreu aos 36 anos porque recusou ser apuntado e não foi por isso que hoje não é uma lenda mundial!).
É legítimo fazer o que sabemos para tentar ajudar o outro, é legítimo tentar mostrar o nosso ponto de vista com base nos nossos conhecimentos e saberes, mas tem de ser legítimo sabermos que a nossa liberdade termina onde começa a do proximo, e que um cirurgião não é um super herói, capaz de salvar o mundo num dia, é um simples canalizador capaz de arranjar ALGUNS problemas humanos!
De qualquer modo, parabéns por te questionares...Talvez o mundo não esteja assim tão perdido!
Beijos

Nuno disse...

a minha opinião é q a pessoa deve sp fz uma escolha esclarecida e consciente dos riscos q cada uma acarreta. se o médico/cirurgião explicar os pros e contras de cada uma, creio q cabe À pessoa a decisão e, caso não haja erros técnicos, a responsabilidade do outcome é da pessoa (q fez a escolha) e n do médico que procedeu (correcta\) à técnica.