Sexta-feira, Agosto 18, 2006

O Susto

Dia de bloco, eram 9 horas. A doente com 30 e poucos anos, simpática confessava-me que estava um bocadinho assustada.
Tentei tranquilizá-la dizendo que para tirar um pequeno quisto do pescoço, não valia a pena estar tão preocupada, porque era uma intervenção simples, realizada sob anestesia local.
O cirurgião chegou, cumprimentou a doente e fomo-nos desinfectar.
Vestimos as batas, calçámos as luvas, colocámos os panos e começámos a anestesiar o local.
5 minutos depois do iniciada a cirurgia, ouço a doente dizer: "não me estou a sentir bem". Simultaneamente, a enfermeira que estava a monitorizar os padrões vitais da doente exclama: "Doutor, a senhora está bradicárdica*".
Olho para o monitor e vejo a frequência cardíaca da doente. 32...24...0!
Olho para o cirurgião. Ele olha para mim.
Como que impulsionado por uma mola, arranco os panos de cima da doente e inicio massagem cardíaca.
4 ou 5 compressões depois, o coração recomeça a bater. Momentos depois a doente voltou a si, ainda um pouco atordoada.
Já com o apoio da anestesista (que tinha chegado a correr entretanto) e com a doente sob anestesia geral, acabámos rapidamente a intervenção e enviámos a doente para o recobro.
Sai da sala e fui sentar-me na sala do café. Estava a tremer, com o coração a bater-me na cabeça a 1000 à hora e atónito sem saber muito bem o que pensar.
Acho que naquele dia, pela primeira vez, tive verdadeira consciência que o potencial de complicação é muito grande na profissão que escolhi, e que quando algo tem que correr mal, corre mesmo muito mal!
E a linha é tão ténue...


* Bradicardia: Diminuição do número de batimentos cardíacos. Grosseiramente podemos considerar a frequência cardíaca normal entre 60 e 100 batimentos por minuto. Qualquer valor abaixo de 60 é considerado bradicardia, embora na prática valores até 40 batimentos por minutos, num doente com anestesia geral não sejam considerados preocupantes.
Relembro que a doente não estava sob anestesia geral.

15 comentários:

amista disse...

Olá João,
Quantas vezes na nossa profissão nos deparamos com o imprevisível, sem qualquer aviso prévio, a vida de um paciente fica literalmente nas nossas mãos, colocamo-nos em causa, damos o nosso melhor . . . . . . . . . . felizmente, como te aconteceu desta vez, tudo terminou em bem.
Parabens!
BEIJINHOS
AMISTA

nufinhas disse...

eu diria q a linha é quase invisível... e isso assusta-me :(
mas ainda bem que tudo acabou da melhor forma possível.
beijinhos

Alexandra disse...

Olá João, só agora aqui vim e estive a ler este susto que apanhaste. Não foi para menos de facto!Esse fio, João... é tão ténue que nem damos por ele, só quando estamos mesmo dentro dele.

Na profissão de psicólogo costumamos dizer e aprendemos logo de início, que a linha de separação entre o estar bem e o descompensar é um fio de cabelo. O que é isso? Nada...

Uma pessoa está viva porque agiste em conformidade! Isso é que importa!!! Parabéns!

Ainda tenho muito que ler por aqui...

Beijinhos

isabelnurse disse...

olá João,
como eu queria dizer-te palavras bonitas, porque mereces.Escolheste, realmente uma profissão de altíssimo risco onde o que conta é o querer adaptar o menor ao maior sonho. Parabéns!!!
Sabes, meu amigo, perdi uma das pessoas que mais amava há pouco tempo, nada é mais desolador e frustante que a impotência de nada poder fazer, lado a lado eu e o meu ex marido (médico como tu), mas de outra especialidade, assistimos até ao último minuto, com a certeza que a morte nos iria vencer, à agonia do ser tão amado.
Isto, meu querido, permite-me que te trate assim, é a realidade dura e fria da vida!
Tive, felizmente os amigos a apoiar-me!
P A R A B É N S !!!
Um beijinho
Isabel

gatosecaes disse...

e o problema é que em regra os doentes avisam... eu tremo quando ouço repetidamente antes de fazer qualquer coisa "ai que eu vou morrer"... apetece-me logo adiar para outro dia...
ou serei só eu a pensar assim???
CF

PS: eu sei, eu sei, o meu blogue não é de medicina... mas a minha vida tb não...

João disse...

CF: Não és o unico a pensar assim não. :)

O interneme também não é SÓ sobre medicina. A minha vida também não é SÓ medicina. Felizmente...

gatosecaes disse...

pois... sorry... esqueci-me do SÓ....
vinha aqui rectificar.
e já agora aproveito: A única....
Mas ainda nunca te aconteceu ouvir uma especie de premonição de um doente? detesto...

amista disse...

Olá joãozinho!
Vamos lá a ver:
- A nossa vida também não é só medicina (lagarto, lagarto) . . . .
- Nós também gostamos de sair, jantar, dançar o tango (porque aprendemos agora), paraquedismo, rafting, escalada, tudo com uma companhia agradável claro, enfim viver a vida!
- A vida nem sempre nos proporciona momentos felizes, há que saber aproveitá-los!!!!
TENS DE SABER VIVER A VIDA JOÃOZINHO!!!!!!!!!!!!!!!!
BEIJINHOS ( em duplo porque hoje precisas)
AMISTA 1
AMISTA 2
P.S. - Hoje, um duende da floresta encantada disse-nos que não estavas fresquinho. Tens de ouvir os nossos sábios conselhos Joãozinho!!!
BEJINHOS AMISTAS

Jonino disse...

Saber dessa linha ténue nao nos tornará melhores medicos? É bom saber que tu a conheces e a respeitas.. Quantos e quantos se estao borrifando pa essa linha.. nao sao eles q saltam para o outro lado...
Acho q sempre tive a ideia q apesar desse tamanho sabias da existência dessa linha e a respeitavas...

Diz a amostra de médico q ainda nem conseguiu acabar a porra do curso...

Grande Abrazo

amista disse...

Olá joãozinho!
Claro que se continuares não fresquinho, temos que te levar a saltar de paraquedas!!! ihihih
Agora escolhe!
BEJINHOS
AMISTAS

amista disse...

Olá Joãozinho!
Bem . . . .como não nos ligas nenhuma, temos que chocar contigo no meio do corredor e dizer olá!!!
Pode ser!!!
Bejinhos
Amista 1
Amista 2

marta disse...

obrigada...muito obrigada, eu IA ser operada a um quisto...fusga-se!!!

AM disse...

João,

Acho que gostarias de ler o seguinte livro (se calhar ja conheces...).

Complications: A Surgeon's Notes on an Imperfect Science.
Atul Gawande
(há na amazon.co.uk. não ponho aqui o link porque é mto comprido)

Há vários livros sobre internos e o internato. Considero este o melhor (op pessoal obviamente).
A título de curiosidade, o autor já acabou o internato. É cirurgião Geral em Boston (no Brigham's, o hospital do Braunwald) e escreve regularmente para o NY Times e faz parte do corpo redactorial do NEJM.

Bom trabalho, abraço

Um recente ex interno

Paulo disse...

João, vindo de férias só agora posso comentar. Eu que até estava na sala ao lado, furioso porque tinha ficado sem enfermeira circulante e anestesista, sem saber da confusão. Mas é isto que faz excitante a nossa profissão, tudo pode acontecer, mesmo nas coisas mais simples, são lições que nunca mais esquecemos, como dizer - "não se preocupe com isso, é muito simples, é uma cirurgia muito pequena..." e depois elas acontecem. Um abraço

teresa disse...

Oi! Já aqui tinha vindo algumas vezes e ainda n tinha percebido q eras médico.. eu vou agora para o 5ºano e a perspectiva de ter d encarar situações como esta tb me assustam..
Boa sorte nesse internato!
Bjinhos


(já agora, a música e os livros q tens no teu profile são, estranhamente, tb dos meus preferidos..:)