Uma das coisas que sempre me fez alguma confusão é o conceito de superespecialidade.
Tendo desde muito cedo optado por seguir uma especialidade considerada por muitos como menor, é sempre com algum gozo que vejo alguns colegas de especialidades ditas "diferenciadas" a olhar-me de cima a baixo (o que no meu caso concreto é sempre dificil, e bem capaz de provocar lesões ao nível da coluna cervical dos ditos superespecialistas...) sempre que me aventuro discutir temas das suas áreas de conhecimento.
Adoro estas aves raras que pululam pelos nossos hospitais, observando (sempre muito enfadados...) os doentes que os míseros especialistas lhe pedem para observar (quando os observam...)
Claro que os há simpáticos e disponíveis, e que estes são, felizmente a imensa maioria, mas os superespecialistas são realmente os mais engraçados de todos.
Como se reconhece um superespecialista?
Bem, comecemos pelo principio.
Não é, obviamente, um cirurgião geral, um internista ou um clinico geral. Não! A sua especialidade é sempre algo de muito avançado, na qual apenas entra um restrito grupo de predestinados com capacidades acima da média.
Claro que o superespecialista como predestinado que é, olha todos os outros não-superespecialistas com piedade, comiseração ou desdém.
O superespecialista duvida sempre do que os colegas lhe dizem. Porque na verdade só ele é que sabe. Só ele é que vê. Só ele é que ouve. Na realidade só ele é que compreende o doente.
Fantásticamente (ou não...) para o comum dos leigos, o superespecialista parece completamente inepto e desprovido de capacidades para comunicar com os doentes, mas...a realidade é que, como só o superespecialista sabe, o comum dos leigos nada percebe sobre nada e não devia sequer olhar para o superespecialista, sob pena de ficar cego com o brilho que naturalmente emana desse ser semi-divino.
Nunca há qualquer justificação para chamar um superespecialista de madrugada. Nunca há nada que seja suficientemente urgente, emergente ou premente que seja da sua área de especialidade (o que às vezes me leva a interrogar-me sobre qual a necessidade da permanência no serviço de urgência destes seres...mas eu sou um dos tais leigos e como tal devo reduzir-me à minha mísera insignificância...)
Ah!...e o facto de, tal como eu, ele também ser pago é completamente irrelevante. Porque na realidade nós (das especialidades rascas) é que devíamos pagar para podermos pisar o mesmo chão e respirar o mesmo ar que o superespecialista.
O superespecialista usa sempre gravata. Ele acha que só assim será respeitado. Eu acho que a compressão carotídea e consequente redução do fluxo sanguíneo cerebral explica muita coisa...
Agora digam-me...há paciência para os aturar???
PS- Este post é escrito ainda na ressaca dum banco. Para bom entendedor...
Esclarecimento: Os superespecialistas não são todos os colegas das especialidades ditas mais diferenciadas. São apenas uma minoria de entre essa grande maioria de colegas acessiveis, simpáticos e sempre disponíveis para responder às solicitações de que são alvo.
Quinta-feira, Julho 20, 2006
Subscrever:
Enviar comentários (Atom)
11 comentários:
Pois é, caro João. Essa é uma espécie que tem proliferado muito nos nossos hospitais nos últimos anos! E, ao ler o teu post pensava como os cenários se mantém, apesar da chegada ao século XXI. Nos anos 90, era eu interno e vivi, tal como tu, essa saga das urgências, dos especialistas de prevenção, e da dificuldade que era chegar à voz com qualquer deles. Tudo era insignificante, sem indicação, "ó colega então não sabe? fazer/diagnosticar/avaliar"(colocara que interessa). Infelizmente, passaram-se mais de 15 anos, e continua tudo na mesma. Eles podem mudar, mas a escola é a mesma. Abraço :(((
Não sou especialista e muito menos superespecilaista, nem sequer trabalho no ramo, mas como cidadã e como mulher curiosa que sou, tenho a minha opinião formada sobre os mais diversos assuntos, entre lees, exactamente aquilo que acabou de descrever.
E eu, que sou liega, partilho exactamente da mesma opinião. Não faz mito tempo, discutiamos exactamente isso.
Belo post.
Beijo terno.
João, isso continua assim??? Ora bolas, bem me parecia, mas pensava que era impressão minha...
Claro que em todo o lado se encontram esses seres tão brilhantes e ofuscantes. Mas, de facto, na vossa àrea sempre os houve em demasia! E, disse uma coisa muito importante, a relação desses seres com o comum mortal não deve ser a mais saudável, nem tão pouco agradável. Mas enfim, lá teremos que os aturar... vocês e nós!!!
Haja paciência!!! Neste caso o tempo avançou, mas a evolução estagnou!
"Este post é escrito ainda na ressaca dum banco. Para bom entendedor..." Não me diga que teve que aturar um espécime desses?? Bolas, deve ser de fazer saltar a tampa.
João, eu nada tenho que opinar porque nem trabalho no vosso meio, tenho é um azar desgraçado que os farejo à distância :)) Mas permita-me que lhe lembre uma coisa. Esses seres tão altivos e conhecedores da verdade,podem ter muitos conhecimentos técnicos, mas nada sabem de comunicação interpessoal
Excelente post!
Olá João
pois é também conhece algumas dessas alminhas brilham mais que o próprio sol, os seres brilhantes, cintilantes,superiores,julgo, também, que a redução do fluxo sanguíneo celebral lhes retirará algumas capacidades...digo eu.
Já reparou como tratam as enfermeiras?
Só não concordo consigo, numa afirmação que fez, "especialidades rascas", não existem! Existem bons e maus profissionais, em todos as profissões!!!
Beijos, João
Conte com a minha profunda admiração.:))
Isabel
na minha maneira de ver o mundo, todas as pessoas devem ser simpáticas e humildes...but, what do I know?
joao e vitor, posso linkar-vos no meu blog? :)
beijinho!*
mané: ficamos honrados pelo ideia e mesmoq ue não o linkes só a sugestão já nos deixa contentes.
Beijokinhas
magnifico
innes95
ta linkado ;)
Eu, Farmacêutico, poderia escrever um texto exactamente igual ao seu, apenas substituindo superespecialista por médico.
Pense nisso.
Abraço.
Caro Mário: Eu também poderia escrever textos sobre farmacêuticos, enfermeiros, auxiliares de acção médica, administrativas e restante pessoal da área da saúde.
Mas não podemos tomar a árvore pela floresta.
E como sei, à partida, que se me conhecesse, provavelmente não diria isso, aceito o seu comentário, mas não me revejo minimamente nele.
Um abraço
Ainda bem.
Abraço.
Enviar um comentário